terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Ritmo chinês do Panamá atrai empresas brasileiras


Vasco Nuñes de Balboa foi o primeiro europeu a cruzar o istmo do Panamá em 1513 e comprovar a proximidade entre os oceanos Atlântico e Pacífico, uma vantagem estratégica que se transformaria em fonte de riqueza e controvérsia séculos mais tarde. A estátua do colonizador espanhol, que dá nome à avenida Balboa, uma das mais congestionadas da Cidade do Panamá, está sendo trasladada para um aterro construído no Pacífico. Com 35 hectares, a "cinta costeira" transformará uma área de mar em vias, parques e espaços públicos. O objetivo é amenizar o trânsito caótico, conseqüência do crescimento econômico, e criar um novo cartão-postal para incentivar o turismo.

Parecida com o Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, a obra está sendo construída por uma empresa brasileira, a Odebrecht. Da mesma forma que a empreiteira, companhias de atividades diversas como Sadia e Embraer estão "descobrindo" oportunidades no Panamá. As vendas do Brasil para o país caribenho ainda são pequenas, mas subiram de US$ 82 milhões, em 2000, para US$ 382 milhões em 2007, conforme a Secretaria de Comércio Exterior. O valor dos contratos das construtoras é bem mais alto. Apenas a obra citada acima renderá US$ 189 milhões. A principal dificuldade dos brasileiros é a forte concorrência com americanos, europeus e asiáticos.

Com apenas 3,3 milhões de habitantes, o Panamá conseguiu um desempenho econômico "chinês". Em 2006, o Produto Interno Bruto avançou 8%, conforme o Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo a Câmara de Comércio e Indústria do Panamá, a taxa de crescimento chegou a 9,8% em 2007 e deve ficar em 8% este ano - já contabilizado o impacto da crise nos Estados Unidos. A renda per capita do Panamá é de US$ 5,2 mil, baixa se comparada com países ricos, mas a maior da região. O fluxo de investimento estrangeiro direto atingiu US$ 2,5 bilhões em 2007, alta de 20% em relação a 2006. A situação social, porém, é precária, com desemprego alto e pobreza, principalmente, nas zonas indígenas. Para amenizar o problema, o governo concede uma "bolsa família", mas, segundo os críticos, o valor é baixo e a amplitude do programa é pequena.

O explosivo crescimento do comércio mundial favoreceu o país, porque aumentou a importância do Canal do Panamá, uma rota crucial para as mercadorias da China chegarem à Costa Leste dos EUA. O governo panamenho iniciou este ano obras bilionárias de ampliação do canal, que significarão combustível adicional para a economia.

O setor de serviços é o coração do Panamá, representando 85% do PIB, mas não se restringe ao canal. Por conta do "boom" de construção civil, turismo, serviços bancários e telecomunicações, a Cidade do Panamá ganhou o apelido de "a Dubai da América Latina".

O Panamá atrai pela localização e pela facilidade de fazer negócios. A economia é dolarizada, o país têm fama de paraíso fiscal e o crédito é farto graças aos 110 bancos internacionais lá instalados. O Panamá tem acordos bilaterais com Taiwan, El Salvador, Honduras, Cingapura, Costa Rica e Chile, o que facilita transações de mercadorias. Não é signatário do Cafta (acordo de livre comércio da América Central), mas fechou acordo com os EUA em meados de 2006. As tarifas de importação são baixas, com exceção do setor agrícola. Tradicional produtor de bananas, o Panamá é protecionista na agricultura. Outra vantagem é a estabilidade política no governo de Martin Torrijos Espinos, após períodos conturbados, como a deposição do ditador Manuel Noriega com a ajuda dos americanos em 1989.

A vocação do Panamá é, sem dúvida, a logística, que chega a quase 30% do PIB. São quatro portos: três no oceano Atlântico e um no Pacífico, que movimentam 4 milhões de contêineres por ano. Onésimo Sánchez, da unidade de inteligência competitiva e investigação econômica da Autoridade do Canal do Panamá, diz que 27 atividades - como reparo de navios, registros, seguros etc. - são incentivadas pelo canal. O país também se tornou conexão aérea para a região. A Copa Airlines atende 36 destinos em 21 países. Está no Panamá a maior zona de livre comércio das Américas. Com importações de US$ 7,7 bilhões e reexportação de US$ 7 bilhões, a Zona Livre de Colón (ZLC) contribui com 7% do PIB. Dos produtos comercializados, 22% vêm da China, 18% de Hong Kong e 15% de Taiwan. Os EUA respondem por 10% e o Brasil por 1%. Circulam pela ZLC medicamentos, televisores, tecidos, vestuário, calçados etc.

Outros setores que crescem muito no Panamá são a construção civil, que representa 8% do PIB, e o turismo. Dado do Ministério de Economia e Finanças aponta que a construção civil expandiu-se 17% em 2006, puxada pelos edifícios residenciais, que chegam a mais de 40 andares, graças a uma legislação bastante flexível sobre a altura das edificações. "A construção civil está aquecida por conta da demanda de estrangeiros, principalmente aposentados, que escolhem o país como segunda residência", disse Manuel Ferreira, diretor de economia da câmara, em entrevista ao Valor por telefone. Aposentados dos EUA, Canadá e Europa vêem em busca de clima quente, economia estável e cuidados médicos bons e baratos. Os hospitais panamenhos possuem parcerias com instituições americanas. O governo também oferece isenção de impostos para pensões estrangeiras.

É a combinação de posição estratégica, bom desempenho econômico e altos índices de investimentos que começa a atrair os brasileiros. Segundo a embaixada do Brasil no Panamá, o número de brasileiros vivendo no país subiu de 760, em 2006, para cerca de mil em 2007 - a maioria representantes e funcionários de empresas. Colombianos e venezuelanos também estão investindo e morando no Panamá. Os primeiros em busca de segurança pessoal e os últimos, de segurança para os negócios. "O empresário brasileiro ainda não descobriu plenamente o Panamá", diz João Carlos Neves de Paiva, administrador do Banco do Brasil no país. Ele conta que é restrito o número de produtos brasileiros nas lojas. No vizinho El Salvador, a presença brasileira é marcante. "O Panamá é surpreendentemente moderno", conta Paiva, que chegou há apenas três meses.

Graças ao crescimento da construção civil, as empreiteiras são as primeiras a fincar raízes no Panamá. No escritório da Odebrecht na capital, trabalham 30 brasileiros entre engenheiros e pessoal das áreas financeira e jurídica. Além da "cinta costeira", a companhia é responsável por um projeto de irrigação no interior e pela estrada que liga a Cidade do Panamá, no Pacífico, a Colón, no Atlântico. Paralela ao canal, é uma obra de US$ 216 milhões. "O Panamá é uma esponja de atração de investimento", diz Roberto Dias, diretor de relações institucionais da Odebrecht.

"É uma mini-Miami", descreve Cesar Gazoni, diretor do Cone Norte da Camargo Corrêa, uma das construtoras que fazem parte de um consórcio que disputa a obra de ampliação do Canal do Panamá. Apesar das boas perspectivas, a concorrência dificulta os negócios. Depois de abrir filial no país em 2007, a Concremat participou de duas concorrências, uma privada e uma pública, mas não venceu. "Existe um potencial razoável de mercado, mas as construtoras espanholas e americanas são muito ativas", diz Mauro Ribeiro Viegas Filho, diretor-presidente

1 Comentários:

  • quarta-feira, 14 abril, 2010

    Olá!
    Esse seu artigo vai ajudar bastante na minha pesquisa! " NOVOS CENÁRIOS PARA O INTERNACIONALISTA"
    Muito bom!
    Obrigada!

    delete

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