sábado, 26 de maio de 2007

Navalha no pescoço de Renan

Caiu como uma bomba no Congresso Nacional a denúncia de que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), tinha parte de suas despesas pessoais bancadas por esquema financiado pela construtora Mendes Júnior. Segundo reportagem da revista Veja publicada ontem, o lobista da construtora, Cláudio Gontijo, assessor da diretoria de Desenvolvimento da Área de Tecnologia da Mendes Júnior, pagava despesas cujo valor chegava a cerca de R$ 16.500 mensais. O senador publicou nota na tarde de ontem negando ter recebido “recurso ilícito ou clandestino” de empresa ou empresário e afirmando que jamais teve qualquer despesa pessoal ou de familiares custeada por terceiros. A construtora Mendes Júnior também negou as acusações em nota.

Nas denúncias contra o senador, que podem ser consideradas desdobramentos da operação Navalha realizada pela Polícia Federal, consta que Gontijo pagava o aluguel no valor de R$ 4.500 de um apartamento de quatro quartos em Brasília para a jornalista Mônica Veloso – com quem Renan tem uma filha de três anos. O lobista também pagaria uma pensão mensal de R$ 12 mil para a jornalista e manteria à disposição do senador um flat num dos hotéis mais luxuosos da Brasília. Gontijo, ainda segundo a Veja, também teria ajudado a financiar as campanhas eleitorais de Calheiros e de seus parentes. Em 2004, por exemplo, ele teria contribuído para as campanhas do filho de Calheiros, Renan Calheiros Filho, e de seu irmão Robson Calheiros, entre outros.

Em contrapartida, Renan teria indicado nomes para cargos públicos a pedido de Gontijo. Entre as supostas indicações de Renan a pedido do empresário, estaria a de Aloísio Vasconcelos Novais, que assumiu a Eletrobrás quando Silas Rondeau foi chamado para comandar o Ministério das Minas e Enegia.

Explicação – Após muitas reuniões com advogados e assessores e evitando os holofotes da imprensa, Renan Calheiros divulgou nota no final da tarde de ontem em que desmente as denúncias veiculadas pela revista Veja. Mas não negou relações com o lobista da empreiteira nem comprovou que tem rendimentos suficientes para pagar as despesas que, segundo a revista, foram custeadas por Gontijo por cerca de dois anos.

A declaração de bens que Renan Calheiros encaminhou à Justiça Eleitoral, em 2002, consta como seu patrimônio uma casa em Brasília, no bairro Lago Sul, dois apartamentos, um em Maceió (AL) e outro em Brasília, e dois carros, um Toyota Hilux, de 2001, e um Mitsubishi, de 2002. Na relação, não estão incluídos os rendimentos do senador. À revista Veja, Renan declarou que ao seu salário soma-se “rendimentos agropecuários”. Não há qualquer referência a empreendimentos neste setor na declaração de bens do senador.

Enquanto a denúncia movimentava o meio político, Renan Calheiros participava, na tarde de ontem, de uma audiência de conciliação com Mônica no Tribunal de Justiça do Distrito Federal, onde teriam chegado a um acordo sobre a pensão. Segundo a revista, Mônica Veloso passava todos os meses no escritório da empreiteira em Brasília para receber a pensão e o aluguel do imóvel onde morava. De acordo com a Veja, “nos últimos anos, Gontijo, mais do que um amigo, tem se apresentado no papel de mantenedor do senador”.

Renan não apareceu em público para dar sua versão. Em nota divulgada no início da noite de ontem, não falou se tem ou não relações com Gontijo e considerou “maliciosa e intolerável” a dimensão dada pela imprensa às suas relações pessoais. E negou ter recebido recurso ilícito de empresário ou empresa. Disse também na nota que não tem nada a esconder ou dissimular e lamentou “ilações” sobre sua vida privada: “É intolerável que, de uma turbulência circunscrita à minha mais íntima privacidade, se queira extrair ilações desarrazoadas e conclusões perversas.”

A revista afirma ainda que despesas da campanha eleitoral de Renan, em 1990, teriam sido custeadas pelo dono da empreiteira Gautama, Zuleido Veras, identificado pela Polícia Federal como o mentor do esquema de fraudes em licitações públicas desvendado pela Operação Navalha. E que foi a partir desta campanha que Renan tornou-se amigo de Zuleido. Ao falar das doações de Zuleido, a reportagem sugere que eram ilegais: “em1990, o empreiteiro bancou sorrateiramente a campanha do senador ao governo de Alagoas, e, embora tenha terminado em derrota, a eleição serviu como marco de uma amizade sólida. Sólida mesmo, a ponto de o empreiteiro freqüentar a residência oficial do presidente do Senado”.

Na nota em que apresentou sua defesa, Renan salientou que todas as doações recebidas em eleições foram feitas em “absoluta conformidade com a lei e constaram das respectivas prestações de contas”. O texto da nota de Renan encerra com um protesto contra a reportagem de Veja: “Sempre defendi a liberdade de imprensa. É pedra angular do regime democrático. Mas seu exercício pressupõe seriedade e responsabilidade, sob pena de transformar-se em instrumentos mesquinhos e inconfessáveis.” A construtora Mendes Júnior negou qualquer vinculação da empresa com pagamentos beneficiando o presidente do Senado ou familiares.

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